
Os vereadores de Eunápolis se preparam para votar, na próxima quinta-feira, 16 de outubro de 2025, o parecer sobre as contas da ex-prefeita Cordélia Torres (União Brasil) relativas ao exercício de 2023. Embora o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA) tenha emitido Parecer Prévio pela aprovação com ressalvas, o ambiente político local indica forte tendência à rejeição por parte da maioria do Legislativo — repetindo o caminho adotado neste mesmo ano de 2025, quando a Câmara rejeitou as contas referentes ao exercício de 2022, contrariando o parecer técnico do Tribunal.
O relatório do TCM destacou déficit orçamentário, despesa com pessoal acima do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal, baixa arrecadação da dívida ativa, ausência de parecer do Conselho Municipal de Saúde e falhas no controle interno. Apesar disso, o órgão considerou que os erros não configuravam irregularidades insanáveis, classificando as contas como “regulares com ressalvas”, com aplicação de multa e recomendações de ajustes administrativos.
A possível rejeição das contas, no entanto, tem contornos fortemente políticos. O atual prefeito Robério Oliveira (PSD), adversário direto de Cordélia, mantém ampla maioria na Câmara, com 13 dos 17 vereadores. Desses, apenas Gildair e Carmem Lúcia afirmam não votar pela rejeição de contas de prefeitos, seja quem for o gestor. Como são necessários 12 votos para derrubar o parecer favorável, a articulação política será decisiva.
Desta vez, parte da oposição também se inclina a votar pela rejeição, alegando que o voto deve levar em conta “o conjunto de irregularidades” e o histórico de denúncias que ainda pesam sobre a ex-prefeita, investigada em ações judiciais. O alinhamento entre governo e oposição neste caso mostra uma convergência política circunstancial, voltada a isolar Cordélia Torres do cenário político local.
A situação torna-se ainda mais contraditória ao se observar o caso das contas de Robério Oliveira referentes a 2019, que foram rejeitadas pelo TCM. O Tribunal apontou grave desequilíbrio fiscal, endividamento acima do limite legal (139,97% da receita líquida), déficit de mais de R$ 24 milhões, despesas com pessoal acima do teto da LRF, irregularidades em licitações e contratações diretas, cancelamento irregular de restos a pagar, omissão na cobrança da dívida ativa e indícios de apropriação indevida de contribuições previdenciárias. Mesmo diante desse quadro, o histórico mostra que a Câmara sempre aprovou as contas de Robério, o que reforça o discurso de uso político das votações.
Se confirmada a rejeição das contas de Cordélia Torres, o resultado não ampliará o prazo de inelegibilidade, mas consolidará a força política do atual prefeito no Legislativo. O episódio também reforça a percepção de tratamento desigual entre gestões: enquanto Cordélia enfrenta resistência e isolamento, Robério, com sete contas rejeitadas pelo TCM em seus 12 anos de governo, segue politicamente blindado.
Nos bastidores, vereadores aliados do governo reclamam de falta de atenção e diálogo com o prefeito, mas dificilmente romperão neste momento. A votação de quinta-feira funcionará como teste de fidelidade da base e ensaio para o futuro julgamento das contas de 2019 de Robério, quando o Legislativo terá de decidir se manterá a coerência ou repetirá o padrão político que marca a história recente de Eunápolis.
A dúvida que permanece: quem rejeita contas aprovadas, aprovará contas rejeitadas?
Contas Rejeitadas x Aprovadas com Ressalvas (TCM-BA)

Contas da ex-prefeita Cordélia Torres, referente ano de 2023.
07629e24.odtConta do prefeito Robério Oliveira, referente ao ano de 2019.
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