
Durante a sessão desta quarta-feira (18), o vereador Negão da Água, líder do governo Robério Oliveira na Câmara de Eunápolis, declarou voto contrário à aprovação das contas da ex-prefeita Cordélia Torres (UB), relativas ao exercício de 2022. Mesmo com o parecer técnico do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), que recomendou a aprovação com ressalvas, Negão afirmou que seu voto, como presidente da comissão, seria pela rejeição. Em um discurso inflamado, classificou a gestão da ex-prefeita como “uma tragédia” e alegou que o caos herdado seria o motivo pelo qual, após seis meses, Robério ainda não teria conseguido reorganizar a cidade.
O vereador aproveitou a tribuna para enaltecer obras e promessas da atual gestão, como reformas em escolas, asfaltamento de bairros e a construção da nova UPA. No entanto, sua defesa entusiasmada ignora o histórico do próprio aliado: em 12 anos como prefeito de Eunápolis, Robério Oliveira teve 7 contas reprovadas pelo TCM. Além disso, enfrentou acusações de improbidade, foi alvo de investigações e chegou a ser preso pela Polícia Federal. Ainda assim, Negão, que tem ligações políticas e pessoais com o gestor, atribuiu à gestão anterior todos os problemas atuais da cidade.
Quando cita avanços na educação, saúde e infraestrutura, o discurso do vereador esbarra na realidade vivida pela população: escolas sem professores e cadeiras, ruas esburacadas, bairros abandonados e promessas que seguem apenas no papel. É verdade que a gestão da ex-prefeita Cordélia enfrentou sérias críticas, mas responsabilizá-la exclusivamente pelo colapso de setores que já eram frágeis em administrações anteriores é, no mínimo, incoerente. Afinal, boa parte dos problemas atuais são heranças de 12 anos de governos do próprio Robério.
O uso da tribuna para blindar politicamente o prefeito é compreensível dentro do jogo de alianças, mas não pode ser tratado como verdade absoluta. A coerência exige que se olhe também para os erros da atual gestão, que prometeu resolver os mesmos problemas que ajudou a construir ao longo de mais de uma década de governo. E se a rejeição das contas de Cordélia foi justificada por supostas falhas, o que dirão os aliados quando a Câmara tiver que votar as contas reprovadas de Robério referentes a 2019?
A expectativa é de que o julgamento não seja feito com dois pesos e duas medidas. A sociedade, cada vez mais atenta, espera dos vereadores postura crítica e isenta, e não discursos vazios que desconsideram o passado e tentam reescrever a história ao sabor das conveniências políticas.
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